Cinema Como “Cutopia”: O ato de criação queer em Tatuagem
DOI:
https://doi.org/10.14591/aniki.v13n1.1157Palavras-chave:
Tatuagem, Hilton Lacerda, camp, ato de criação queer, debocheResumo
Pensar em um cinema queer é refletir sobre como o audiovisual pode contribuir para uma proposta antinormativa de gênero e sexualidade. Partindo da noção de que uma série de filmes contemporâneos tem concretizado esse propósito por meio da encenação de um ato de criação queer (Silva 2021), este artigo busca identificar esse ato no longa-metragem brasileiro Tatuagem (Hilton Lacerda 2013). Por meio da teatralidade das performances musicais, cômicas e melodramáticas encenadas pelos personagens da trama a partir de um ponto de vista periférico e marginal, o filme desestabiliza e ressignifica o contexto histórico, político e geográfico ao seu redor, queerizando a resistência à ditadura civil-militar brasileira. Com base nessa leitura, a análise examina como o cineasta Hilton Lacerda usa isso para desestabilizar a própria mise-en-scène cinematográfica por meio do teatral: evidenciar o cinema como encenação historicamente heteronormativa, que pode ser também queerizada. Para isso, o artigo busca compreender como esse uso da teatralidade se aproxima ou não do camp – e em que medida Tatuagem propõe sua própria versão, geográfica e historicamente localizada, do termo. A partir da revisão teórica de alguns/mas dos/as autores/as que se debruçaram sobre o estudo do camp, contrapostos a depoimentos colhidos em entrevista feita ao realizador, a investigação interroga até que ponto o filme se apropria das estratégias apontadas por esses/as teóricos/as, ou as reinventa e desconstrói, oferecendo como alternativa o deboche, procedimento mais próximo da tradição artística e cinematográfica brasileira
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Tatuagem [longa-metragem]. Dir. Hilton Lacerda. Produção: Rec Produtores Associados Ltda, Brasil, 2013, 110min. Cópia consultada em DVD. Edição: Imovision, 2014.
Discografia
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