Narrativas da Imagem e (Anti)Expanded Cinema em Julião Sarmento

Miguel Mesquita Duarte, Bruno Marques

Resumo


Para lá da dificuldade em circunscrever o seu campo teórico e epistemológico – dada a pluralidade de acepções que o mesmo abarca e dos múltiplos desdobramentos que foram despontando nas últimas décadas, - uma das tónicas mais prementes afectas ao expanded cinema refere-se à sua relação com questões de narrativa. Embora pouco óbvia, a referência ao trabalho de Julião Sarmento neste domínio parece-nos particularmente útil, desde logo pelo modo como a obra do artista português configura a existência de um impulso contra-narrativo que, construindo-se primeiramente no interior de uma dialéctica singular entre a fotografia e o cinema, pulveriza de modo particularmente eficaz o centramento estrutural e a linearidade espácio-temporal da sequência de imagens. Seguindo um percurso que nos leva dos filmes experimentais do meio dos anos 70 até às instalações dos anos 2000, procuramos sugerir que a importância do estruturalismo e da perspectiva genealógica da história e da memória do cinema constituem, no contexto da obra do artista, aspectos cada vez mais significativos na pesquisa ligada às novas configurações perceptivas, cognitivas e topológicas que acompanham a emergência do cinema dito expandido. A originalidade e o posicionamento crítico do autor levar-nos-á, por último, a equacionar a hipótese de um anti-expanded-cinema: é que mais do que uma problemática restrita à evolução tecnológica e ao alargamento multi-disciplinar, em Sarmento a expansão do cinema refere-se, sobretudo, à expansão dos critérios ligados à circulação do pensamento e do desejo numa topologia de infra-significação que emerge das novas formas de narrar, de fazer e de exibir cinema. Desta forma, o que está em causa é pois todo um novo modo de identificar, nomear e complexificar a problemática do expanded cinema, para lá da sua definição ortodoxa.

Palavras-chave


Julião Sarmento; Expanded Cinema; Narrativa; Estruturalismo; Tempo; Desejo

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