Música e som no cinema mudo (prazo: 15 junho 2017)

O estudo das práticas sonoras e musicais durante o período do cinema mudo tem beneficiado, nas últimas décadas, de um interesse crescente. Desde os trabalhos pioneiros de Rick Altman, no início da década de 1980, este campo de estudos tem vindo a explorar a extraordinária diversidade de práticas sonoras que foram desenvolvidas durante os primeiros anos do cinema, revelando a importância da dimensão auditiva na experiência sensível dos filmes pelos espectadores. Simultaneamente, assistimos a uma mudança nas práticas de exibição contemporâneas do cinema mudo, que têm vindo a integrar de forma cada vez mais significativa a música e a criação sonora: tornou-se norma a apresentação de acompanhamentos musicais interpretados ao vivo, foram criados festivais especializados e multiplicaram-se as edições em DVD que propõem bandas sonoras inéditas, através de encomendas a compositores ou da reconstituição das partituras originalmente escritas para os filmes.

Mas a emergência dos estudos sobre o lugar do som e música no cinema mudo não veio apenas expandir os limites dos estudos fílmicos ou reconfigurar os modos de exibição. O reconhecimento da importância do som e da música contribuiu também para desafiar as tradicionais leituras do cinema enquanto texto, sublinhando a sua dimensão enquanto evento (Rick Altman). Como assinalaram recentemente Claus Tieber e Anna Windish, a música e o som são elementos fundamentais da dimensão multi- e transmédia da experiência fílmica, assim como do seu carácter performativo, podendo o seu estudo contribuir para repensar a própria natureza do cinema, visto como “uma cadeia de processos de produção, exibição e recepção” e como o resultado de relações “audiovisuais e intermediais” (Tieber e Windish 2014).

Nos últimos anos, por outro lado, diversas publicações têm mostrado a importância das especificidades nacionais, regionais e locais no desenvolvimento das práticas musicais e sonoras de acompanhamento de filmes mudos, que até recentemente tinham sido sobretudo estudadas no contexto do cinema norte-americano, alemão e francês. Projetos como The Sounds of Early Cinema in Britain no Reino Unido, Cabiria Research Project em Itália ou Sound and Music in Viennese Cinemas (1896-1930) na Áustria, têm contribuído para revelar uma cartografia mais complexa, diversificada e transnacional dos primeiros anos da história do cinema. Da mesma forma, o âmbito disciplinar destes estudos tem-se alargado, cruzando os estudos fílmicos, a musicologia, a história cultural e a estética, e interessando-se por todos os elementos que participam na construção da experiência sonora do cinema, da análise das partituras à acústica das salas, das relações com a indústria musical às condições de trabalho dos músicos.

Este dossiê temático da Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento acolherá investigações que explorem a variedade de práticas musicais e sonoras no cinema mudo, a partir de diversas perspetivas e em diferentes contextos geográficos. Poderão ser abordados, entre muitos outros, os seguintes temas:

  • Práticas musicais e sonoras durante o período do cinema mudo;
  • A importância do acompanhamento musical e sonoro na redescoberta e releitura do cinema mudo;
  • O recurso a estéticas contemporâneas (música de vanguarda, experimental, minimalista, jazz, techno, pop, etc.) no acompanhamento de cinema mudo;
  • Formas, dispositivos e contextos de performance no acompanhamento musical de filmes mudos;
  • Compositores, maestros, orquestras e conjuntos instrumentais especializados no acompanhamento de cinema mudo;
  • Cinema mudo e práticas de improvisação musical;
  • A catalogação, edição e reconstituição de partituras originais e de cue-sheets;
  • As práticas de seleção e compilação de música preexistente para acompanhamento de filmes;
  • A constituição de bibliotecas, manuais e antologias para o acompanhamento de cinema mudo;
  • Efeitos sonoros e sonoplastia no cinema mudo;
  • Cinema mudo e tecnologias de reprodução mecânica do som (gramofones, pianos mecânicos);
  • A palavra falada no cinema mudo (conferências, narração de filmes por atores);
  • O cinema mudo e a canção;
  • O cinema mudo e a música de dança;
  • O cinema mudo e a ópera;
  • As relações entre música e narrativa no cinema mudo;
  • A receção crítica do acompanhamento musical de filmes mudos;
  • A música e o som na imprensa cinematográfica especializada;
  • A utilização de conceitos e termos musicais nos discursos sobre o cinema mudo (ritmo, harmonia, sinfonia, contraponto);
  • A representação de situações de escuta ou de performance musical em filmes mudos;
  • Cantores e músicos enquanto atores de filmes mudos;
  • A organização do trabalho dos músicos nos cinemas até à transição para o cinema sonoro;
  • A utilização de fontes musicais no processo de restauro de filmes mudos.

Manuel Deniz Silva é investigador integrado do INET-md (FCSH-UNL), onde coordena a linha temática “Música e Média”. Doutorado em Ciências Musicais, co-editou, com M. do R. Pestana, Indústrias de Música e Arquivos Sonoros em Portugal no Século XX: práticas, contextos, patrimónios (Câmara Municipal de Cascais e INET-md, 2014) e, com E. Buch e I. Contreras, Composing for the State: Music in 20th-Century Dictatorships (Farnham: Ashgate e Fondation Cini, 2016). É  co-editor geral da Revista Portuguesa de Musicologia (Nova Série) e editor da revista Kinetophone, Journal of Music, Sound and Moving Image.



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